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STEP Defesa: Tecnologias Estratégicas e Prioritárias que Reforçam a Soberania, Segurança e Resiliência Europeia
A Plataforma de Tecnologias Estratégicas para a Europa (STEP – Strategic Technologies for Europe Platform) foi criada pela União Europeia para reforçar a soberania tecnológica, a competitividade industrial e a resiliência da economia europeia em setores considerados críticos para o futuro do continente. Embora a STEP abranja vários domínios estratégicos, incluindo as tecnologias digitais, as tecnologias limpas e as biotecnologias, a sua dimensão de defesa assume atualmente uma importância crescente num contexto marcado pelo agravamento das ameaças à segurança europeia, pela guerra na Ucrânia e pela necessidade de reforçar a Base Tecnológica e Industrial de Defesa Europeia (EDTIB).
Para Portugal, a aposta europeia nas tecnologias estratégicas de defesa representa uma oportunidade única para reforçar a sua base industrial e tecnológica, posicionando-se em áreas de elevada especialização como os sistemas não tripulados, as comunicações seguras, o espaço, a cibersegurança, a inteligência artificial (IA) e os materiais avançados. O país dispõe já de um ecossistema empresarial e científico relevante, assente na Base Tecnológica e Industrial de Defesa (BTID) e no AED Cluster Portugal, que integra mais de 170 entidades dos setores da Aeronáutica, Espaço e Defesa. A indústria portuguesa encontra-se ainda integrada nas cadeias de valor globais dos principais fabricantes mundiais, estando presentes componentes produzidos em Portugal em aeronaves da Airbus, Boeing e Embraer.
Esta dinâmica é confirmada pelos dados mais recentes da Economia de Defesa portuguesa. Em 2025, o setor integrava 444 empresas e entidades, gerava cerca de 11 mil milhões de euros de volume de negócios e empregava mais de 54 mil pessoas. Destaca-se igualmente pela sua forte capacidade de inovação, com um investimento em Investigação e Desenvolvimento correspondente a 3,4% da faturação — mais de cinco vezes superior à média das empresas nacionais — e por uma forte orientação internacional, tendo as exportações ultrapassado os 3,3 mil milhões de euros em 2025. Estes indicadores evidenciam o crescente peso da indústria portuguesa nas cadeias de valor europeias da defesa e a sua capacidade para captar financiamento STEP em domínios alinhados com as prioridades estratégicas da União Europeia, reforçando simultaneamente a competitividade da economia nacional e a autonomia tecnológica europeia.
Tecnologias de defesa elegíveis para apoio
Neste sentido, no âmbito da STEP, as tecnologias de defesa elegíveis para apoio correspondem, em primeiro lugar, às tecnologias e produtos abrangidos pelo Anexo da Diretiva 2009/43/CE relativa aos produtos relacionados com a defesa, que inclui a Lista Militar Comum da União Europeia, atualizada anualmente pelo Conselho.
Esta lista cobre uma vasta gama de equipamentos, componentes, tecnologias, sistemas de armas, munições, sensores, equipamentos eletrónicos, software especializado e tecnologias associadas ao desenvolvimento, produção, operação e manutenção de capacidades militares.
Todavia, a definição atual das prioridades STEP para a defesa vai além da simples referência à Lista Militar Comum. Em consonância com as orientações estabelecidas pelo Conselho Europeu de 6 de março de 2025, a plataforma concentra o apoio financeiro e estratégico em áreas consideradas essenciais para garantir a prontidão operacional, a autonomia estratégica e a capacidade de resposta da União Europeia perante ameaças futuras, refletindo igualmente as lacunas de capacidades identificadas pelos Estados-Membros e pelas instituições europeias:
Defesa Aérea e Antimíssil
A defesa aérea e antimíssil constitui uma das áreas prioritárias da STEP devido ao aumento das ameaças provenientes de aeronaves, mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro, armas hipersónicas e drones. A investigação científica tem demonstrado que os sistemas modernos de defesa dependem cada vez mais da integração de múltiplos sensores, incluindo radares multifunção de matriz ativa (AESA), sensores infravermelhos espaciais e sistemas avançados de comando e controlo capazes de fundir informação em tempo real.
As tecnologias apoiadas incluem radares de vigilância de longo alcance, sistemas de alerta precoce, intercetadores cinéticos, sistemas de comando e controlo integrados e sensores espaciais para rastreio de mísseis. Estudos recentes sublinham igualmente a importância dos sensores espaciais para a deteção de ameaças hipersónicas, cuja velocidade e manobrabilidade desafiam os sistemas terrestres tradicionais [1].
Artilharia e Ataque de Precisão
A evolução dos conflitos recentes demonstrou a relevância de sistemas capazes de atingir alvos a grandes distâncias com elevada precisão, minimizando simultaneamente o consumo de munições e aumentando a eficácia operacional. A tendência atual aponta para sistemas de artilharia com maior alcance, elevada precisão e integração digital com sensores e plataformas ISR (Intelligence, Surveillance and Reconnaissance).
Neste domínio, poderão ser apoiados desenvolvimentos relacionados com sistemas de artilharia avançada, munições guiadas, sistemas de aquisição de alvos, plataformas de lançamento e tecnologias de integração digital do campo de batalha, sendo que a literatura científica se tem focado na combinação de sistemas de navegação inercial, GPS resistente a interferências e IA para aumentar a precisão dos ataques e reduzir o consumo de munições [2].
Mísseis e Munição
Os mísseis guiados e as munições inteligentes representam atualmente um dos segmentos tecnologicamente mais avançados da indústria de defesa. A evolução recente tem incidido na melhoria dos sistemas de guiamento, sensores terminais, propulsão avançada e materiais energéticos de elevado desempenho [3].
No entanto, a Europa enfrenta o desafio de aumentar a sua capacidade produtiva, reduzir dependências externas e assegurar cadeias de abastecimento resilientes para responder às necessidades dos seus Estados-Membros.
Assim, a STEP incentiva o desenvolvimento de tecnologias de fabrico avançado, novos materiais, propulsão, sistemas de guiamento inovadores e capacidades industriais que permitam aumentar a produção de munições e mísseis estratégicos, incluindo mísseis superfície-superfície, superfície-ar, ar-ar e antinavio, bem como ogivas de nova geração, propelentes avançados e sistemas de navegação resistentes a guerra eletrónica.
Drones e Sistemas Antidrones
Os sistemas não tripulados transformaram profundamente a condução das operações militares. Atualmente, os drones desempenham funções de reconhecimento, vigilância, logística, aquisição de alvos, guerra eletrónica e ataque.
Paralelamente, cresce a necessidade de desenvolver capacidades de defesa contra drones e enxames de drones autónomos [4]. Por esta razão, as tecnologias prioritárias apoiadas pela STEP poderão incluir VANTs de todas as classes, sistemas cooperativos de enxameamento (swarming), sensores autónomos, algoritmos de navegação e sistemas antidrones baseados em interferência eletrónica, lasers, energia dirigida ou intercetação cinética.
Facilitadores Estratégicos
Os chamados strategic enablers (facilitadores estratégicos) incluem tecnologias essenciais para garantir o funcionamento das operações militares modernas. Entre estas destacam-se os ativos espaciais, a observação da Terra, os sistemas de posicionamento, navegação e tempo (PNT), as comunicações seguras, a proteção de infraestruturas críticas e a segurança energética.
A crescente dependência das forças armadas relativamente aos serviços espaciais faz com que a consciência situacional espacial (Space Situational Awareness – SSA) seja considerada uma prioridade estratégica. A investigação nesta área centra-se na monitorização de objetos orbitais, prevenção de colisões, vigilância de ameaças espaciais e proteção de satélites militares [5], pelo que a STEP reconhece estas áreas como fundamentais para a resiliência da União Europeia.
Cibernética, IA e Guerra Eletrónica
A digitalização do campo de batalha transformou o domínio cibernético numa dimensão operacional essencial das forças armadas modernas. Num contexto em que governos, infraestruturas críticas, sistemas militares e cadeias de abastecimento se encontram cada vez mais interligados, as ameaças cibernéticas assumem um impacto potencialmente estratégico.
Por essa razão, a STEP atribui elevada prioridade ao desenvolvimento de capacidades de ciberdefesa, incluindo sistemas avançados de deteção e resposta a incidentes, proteção de redes críticas, comunicações seguras, criptografia avançada e operações de informação. Paralelamente, promove o desenvolvimento de soluções digitais destinadas a reforçar a resiliência operacional e a soberania tecnológica europeia [6].
A IA ocupa igualmente um lugar central entre as tecnologias prioritárias da defesa europeia. A aplicação de algoritmos avançados de IA permite acelerar o processamento e análise de grandes volumes de informação, melhorar a consciência situacional, apoiar a tomada de decisão em tempo real e aumentar a eficácia das operações multidomínio. Neste contexto, a União Europeia procura reforçar a sua autonomia tecnológica através do desenvolvimento interno destas competências críticas, reduzindo dependências externas e aumentando a competitividade da indústria europeia da defesa [6].
Complementando estas capacidades, a guerra eletrónica assume um papel cada vez mais determinante nos conflitos contemporâneos, onde a superioridade no espectro eletromagnético pode ser decisiva para o sucesso das operações militares. Esta área inclui tecnologias destinadas a detetar, localizar, explorar, interferir, degradar ou proteger sistemas de comunicação, radares e sensores adversários. As prioridades da STEP abrangem suites avançadas de guerra eletrónica, sistemas de radiofrequência, optrónica, sensores eletro-óticos e capacidades de gestão do espectro eletromagnético, de forma a garantir a proteção das forças, a aquisição de alvos, a vigilância avançada e a manutenção da liberdade de ação em ambientes operacionais altamente contestados [7].
Mobilidade Militar
A capacidade de deslocar rapidamente forças, equipamentos e meios logísticos entre Estados-Membros tornou-se uma prioridade estratégica europeia para responder eficazmente a crises ou conflitos. Neste domínio, a STEP apoia soluções para armazenamento militar, engenharia de campanha, logística inteligente e manutenção avançada. Destaca-se particularmente o potencial da fabricação aditiva, que permite produzir peças sobresselentes diretamente no espaço operacional, reduzindo dependências logísticas e aumentando a disponibilidade dos equipamentos [8].
Combate Terrestre
O combate terrestre está a evoluir para um paradigma cada vez mais digitalizado, interligado e autónomo, onde a superioridade operacional depende da integração eficaz entre combatentes, plataformas e sistemas de informação. Neste contexto, as tecnologias apoiadas pela STEP incluem sistemas de apoio de fogo próximo, sistemas individuais do soldado, sensores vestíveis, exoesqueletos, veículos terrestres tripulados e sistemas terrestres não tripulados, sendo que a investigação recente demonstra um crescimento significativo dos veículos terrestres autónomos para missões de reconhecimento, transporte logístico, evacuação médica e deteção de explosivos [9].
Domínio Marítimo
No domínio marítimo, as prioridades incluem a consciência situacional marítima, sistemas autónomos de superfície e subaquáticos, operações em fundos marinhos e guerra antissubmarino. Estas áreas assumem uma importância crescente num contexto em que a proteção das linhas de comunicação marítima, dos cabos submarinos e das infraestruturas energéticas offshore se tornou uma preocupação estratégica para a segurança europeia. De facto, a investigação científica tem destacado a crescente importância dos veículos autónomos subaquáticos (AUV) e dos veículos operados remotamente (ROV), capazes de realizar missões de vigilância, cartografia, inspeção de infraestruturas críticas e deteção de ameaças submarinas [10].
Combate Aéreo
As capacidades de combate aéreo continuam a constituir um dos pilares fundamentais da superioridade militar moderna, assegurando a projeção de força, a proteção do espaço aéreo e a capacidade de resposta rápida em múltiplos cenários operacionais. Neste domínio, a STEP prevê o apoio ao desenvolvimento de sistemas avançados de combate aéreo, aeronaves de alerta e controlo aéreo antecipado (AEW&C), plataformas de transporte estratégico e tático, aeronaves de asa rotativa e capacidades de reabastecimento ar-ar, sendo estas tecnologias essenciais para garantir a mobilidade, interoperabilidade e prontidão das forças armadas europeias em operações de elevada intensidade.
De facto, a investigação científica e tecnológica tem igualmente evidenciado a importância crescente das capacidades de reabastecimento em voo, que permitem aumentar significativamente o alcance, a permanência sobre o objetivo e a flexibilidade operacional das aeronaves tripuladas e não tripuladas. Paralelamente, os sistemas AEW&C assumem um papel crítico na vigilância de vastas áreas geográficas, na deteção precoce de ameaças aéreas e marítimas e na coordenação das operações multidomínio, funcionando como verdadeiros centros aéreos de comando e controlo [11].
Saúde Militar e Defesa CBRN
Por último, a STEP inclui tecnologias médicas e de proteção contra ameaças químicas, biológicas, radiológicas e nucleares (CBRN). Este domínio engloba sensores de deteção, equipamentos de proteção individual, sistemas de descontaminação, monitorização ambiental e soluções médicas para resposta a incidentes CBRN.
Neste sentido, a investigação atual tem-se centrado na utilização de biossensores avançados, espectrometria, nanotecnologia e sistemas autónomos para aumentar a rapidez de deteção e identificação de agentes perigosos. Paralelamente, têm sido desenvolvidas novas tecnologias de descontaminação e de apoio à decisão para gestão de crises CBRN [12].
Uma oportunidade estratégica para Portugal
Em conjunto, estas áreas tecnológicas ilustram a ambição europeia de reforçar simultaneamente a capacidade militar, a autonomia estratégica e a competitividade industrial. A STEP procura acelerar o desenvolvimento destas tecnologias críticas, promover a inovação e garantir que a Europa mantém capacidades de defesa adequadas aos desafios de segurança das próximas décadas.
Para Portugal, este contexto representa uma oportunidade estratégica para consolidar o seu posicionamento em cadeias de elevado valor acrescentado, transformando conhecimento científico e capacidade tecnológica em soluções com impacto europeu e global. Para que as empresas nacionais consigam aproveitar plenamente este potencial, será fundamental identificar o enquadramento mais adequado dos seus projetos, estruturar estratégias de financiamento robustas e maximizar as probabilidades de obtenção de apoio.
Neste percurso, a Ayming assume-se como um parceiro de referência, apoiando organizações na identificação de novas oportunidades, na definição de estratégias de inovação e investimento e na preparação de candidaturas competitivas que permitam acelerar o crescimento, a internacionalização e a afirmação tecnológica de Portugal no ecossistema europeu da defesa.
Referências
[1] Fontana, S., Di Lauro, F. (2022) An Overview of Sensors for Long Range Missile Defense. Sensors 22(24): 9871. DOI: 10.3390/s22249871
[2] U.S. Government Accountability Office (GAO) (2025) Army Modernization: Leading Practices Could Better Support Delivery of Artillery and Missiles. GAO-25-107263, June 2025.
[3] Congressional Research Service (2025) Defense Primer: U.S. Precision-Guided Munitions. Congressional Research Service, July 2025.
[4] Alqudsi, Y., Makaraci, M. (2025) UAV swarms: research, challenges, and future directions. J. Eng. Appl. Sci. 72: 12. DOI: 10.1186/s44147-025-00582-3
[5] European Defence Agency (EDA) (2026) Space. Capability Development. Brussels: European Defence Agency. Disponível em: https://eda.europa.eu/what-we-do/capability-development/space
[6] Yan, J., Jiang, Y., Wang, X. et al. (2026) Ubiquitous sensing of marine activities via the cooperation of autonomous underwater vehicles. Sci Rep 16: 2430. DOI: 10.1038/s41598-025-29532-y
[7] Vadivelu, K., Ramamoorthy, M. (2025) Advancements in air to air refuelling systems of combat aircraft: A review. Adv. Sci. Technol. Res. J. 19(12): 173–196. DOI: 10.12913/22998624/210197
[8] Delaporte, M. (2025) Additive Manufacturing and the Land Forces Supply Chain: A Revolution Within a Revolution. Defense.info, 17 December 2025.
[9] Chaney, J. (2026) Unmanned Ground Systems at the Tactical Edge: From Experimentation to Fielded Capability. NATO Joint Analysis and Lessons Learned Centre (JALLC), March 2026.
[10] Rocco, A., Catalano, S., Corradini, M.L. et al. (2024) Oceanic Challenges to Technological Solutions: A Review of Autonomous Underwater Vehicles. IEEE Access 12: 46202–46231. DOI: 10.1109/ACCESS.2024.3378365
[11] Fontana, S., Di Lauro, F. (2022) An Overview of Sensors for Long Range Missile Defense, Sensors 22(24): 9871. DOI: 10.3390/s22249871.
[12] Popa, M. (2025) Literature Review on Recent Technological Methodologies in Detection and Identifying CBRN Agents. Land Forces Academy Review, 30(2). DOI: 10.2478/raft-2025-0019


